Victoria.15 years old.A+ bloodtype.July 31th, 1999,Sun. Studying: Imagination elementary school. ( more..? )
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Posted on: terça-feira, 19 de agosto de 2014 @ 11:18 | 0 comment(s)
Entre Acordes

Entre Acordes.
Uma guitarra encostada na parede suja era rodeada por grãos de poeira que brilhavam a luz amarelada, pousando nas cordas que precisavam ser trocadas e se aglomerando nos riscos causados pela idade. Minha velha guitarra. O velho estúdio que me roubava algumas notas do salário já baixo. Logo a fumaça que saia por meus lábios fez companhia ao vermelho de sua pintura e inspirei o ar daquela sala congestionada por cigarros. O doce aroma da nicotina que me acalmava os nervos. Levei o cilindro até a boca novamente, tragando ao encostar a cabeça na parede. Os acordes do baixo de Tao me enchiam os ouvidos, fazendo os pensamentos complicados se tornarem claros o suficiente para que pudesse ter alguma paz. Baquetas ondulavam pelos nós dos dedos de Chanyeol, perdendo-se algumas vezes entre as falanges longas e grossas. Um suspiro. Uma voz melodiosa como um rio de chocolate derretido, Kyungsoo.
 Traguei outra vez e levei uma das mãos aos cabelos, os tirei do rosto e sorri.
- Eu já vou indo. – Era Chanyeol, já abandonando as baquetas em qualquer lugar e deixando a bateria para trás.
- Vou com você, me espere. – Tao, mascando qualquer doce enjoativo, disse e guardou o baixo em estado semelhante ao meu próprio instrumento. – Tchau hyung.
Kyungsoo disse tchau e pediu para que Tao o trouxesse café amanhã á noite. A porta se abriu e fechou e só restaram eu, meu cigarro e Kyungsoo com o próprio. Silêncio. Dezenas de minutos de silêncio. Se prestasse mais atenção aos sons ao meu redor poderia ouvir a respiração dele, mas no silêncio minha cabeça se ocupava em fazer barulho. O vi exalar a fumaça e levantar os olhos, encontrando os meus, aqueles olhos opacos e tempestuosos demais para que eu adentrasse e entendesse o que se passava através deles. Dentro da sua alma.
- E você, não vai embora? – Ele perguntou com sua voz que parecia soar em uma frequência diferente das outras.
- Não. As coisas estão complicadas em casa.
- Vocês brigaram?
- Acho que sim.
 - E por quê?
- O aluguel subiu e o dinheiro dos meus bicos não cobriu minha parte desse mês.
Outro suspiro, outra tragar, outra fumaça, outra vez longos cílios a baterem contra os grãos de poeira ao fechar e abrir de olhos.
- Já pensou em arrumar um emprego Baekhyun?
- Se já tivesse pensado, estaria agora num escritório com uma gravata desgraçada no pescoço.
- Não é como se tivesse que trabalhar num escritório.
- Não é como se eu soubesse fazer outra coisa.
Encerrei e ri da minha própria desgraça, porque era o que me sobrara a fazer e abaixei a cabeça, encarando o espaço entre minhas pernas, lugar onde apaguei o cigarro já no fim. Busquei outro no maço, o último, e somente quando já havia o colocado na boca lembrei que havia deixado o isqueiro em casa. Frustrado, o prendi entre os dedos e olhei para frente, encontrando um Kyungsoo de pernas cruzadas sobre o amplificador e jeans rasgados, coturnos pretos, casaco preto, cabelos pretos, olhos pretos. Uma imensidão de escuridão brilhante como uma chama azul a beira da praia noturna. Vi ele apagar o cigarro ali mesmo, na maquina ultrapassada e ainda assim cara, o que lhe rendeu bons xingamentos da minha parte. Ele se levantou e veio até mim, se agachando na minha frente. Seus dedos brancos e finos capturaram o cigarro entre os meus, o levaram até a boca enquanto tirava o próprio isqueiro do bolso e o acendia.
Outro suspiro.
- Você é impossível, Do.
Disse e ele sorriu e tragou, mas não exalou e eu entendi e separei meus lábios para que ele soprasse o gás cinza na minha boca e eu pudesse sela-los novamente, o prendendo e fazendo descer. As mesmas partículas que estiveram em seus pulmões agora se debatiam nos meus e me faziam semicerrar os olhos pelo efeito relaxante, silenciando os gritos de memórias dos meus pensamentos. Aqueles olhos me encaravam, perfuravam minha pele e abriam meus músculos, adentrando o mais fundo possível do meu eu e ficando lá, deixando sua marca, mais marcas. Sem nenhum toque, sem nem sentir seu calor, só a fumaça e os malditos olhos grandes demais para um rosto pequeno demais.
- Não dê mais motivos para ele se estressar, Byun.
E ele se levantou, ainda com o cigarro em mãos e foi embora, me deixando com os pensamentos nublados e olhos fechados.
Não me dê motivos para relaxar, Do.
Já era noite e as ruas estavam movimentadas, o som da voz boa demais do Kyungsoo foi substituído pelo dos carros correndo pelas ruas, buzinando e tudo mais. Apenas alguns minutos após a saída do vocalista, Chanyeol me ligou. A voz embargada me pedindo para o encontrar na loja de conveniência de sempre. Preocupei-me até aquele lugar ser mencionado, foi quando percebi o que estava acontecendo e não pude fazer mais nada além de concordar e pedir para que se cuidasse até eu chegar, e quando cheguei, lá estava ele, de rosto inchado, olhos e nariz vermelhos, braços tatuados a mostra naquele frio de novembro. Suspirei com a imagem conhecida e apenas me sentei na cadeira oposta a sua, logo pegando uma das cervejas – que ainda não estava vazia – a mesa e a abri. Um gole. Um suspiro.
Encarei suas clavículas marcadas por medo de encarar seus olhos. Eu não queria ver o que estava ali, mas eu sabia que estava e não queria lidar com isso então só esperei que ele começasse a falar.
- Jung Ah terminou comigo. – Chanyeol disse, com aquela voz grossa que agora tremulava. Percebi que ele levantou o olhar e estava esperando que eu fizesse o mesmo e eu, por falta de desculpa, fiz.
Aqueles olhos.
Olhos que poderiam iluminar uma cidade inteira por séculos, olhos profundos, gentis, sem grandes segredos. O castanho da íris que virava um negro a suas bordas, um misto discreto de cores, um misto discreto de emoções. Agora aqueles olhos brilhantes perdiam seu brilho, o negro de suas bordas quase ocupava todo o espaço do castanho e não havia emoção nenhuma além da tristeza ali.
A garota de quem ele falava era uma que conheceu em um ônibus num domingo de primavera. Ela tinha um longo cabelo preto, algumas poucas curvas e um hábito de beijar outros homens que não Chanyeol quando bebia demais nas noites agitadas.
- Ela me disse que encontrou outro cara, que ele a faz mais feliz.
Um suspiro, seus olhos encaravam as estrelas quase inexistentes do céu da capital para que as lágrimas não lhe escapassem e eu desejei algumas coisas. Desejei que amanhã Chanyeol encontrasse uma garota na padaria pela manhã, com um sorriso bonito, cabelos cacheados e castanhos e um grande, grande coração. Desejei que eles logo começassem a namorar e permanecessem juntos até descobrirem que ela estava grávida e então se casassem, felizes, teriam mais alguns filhos, alguns cachorros e uma casa modesta, mas uma vida inteira de alegrias. Desejei que Jung Ah fosse esquecida naquele momento e aqueles olhos voltassem a brilhar como dois grandes sóis.
- Talvez ela só tenha encontrado algum outro cara para fazer de idiota. – Eu disse, ainda centrado na melancolia de seus olhos.
- Eu não sou idiota.
- Por dizer que não é, talvez seja cego também. Mas isso não é nenhuma novidade.
- Hyung. – Ele chamou em uma voz ainda mais tremula, falha, fraca, como se estivesse a beira do abismo e só eu pudesse segura-lo.
Talvez fosse verdade.
Era a sétima vez que estava ali, naquela loja de conveniência, encarando os dedos que estampavam “H-O-P-E” “L-E-S-S” amassarem uma lata de cerveja. Talvez Chanyeol fosse mesmo sem esperança, talvez estivesse fadado a passar o resto de seus dias periodicamente vindo até ali, pedindo algum conforto em minhas palavras. Mas ele não era, não enquanto eu estivesse ali. Não enquanto eu arrastasse a cadeira até o seu lado e o abraçasse e o deixasse derramar quantas lágrimas quisesse em meu ombro e dissesse que tudo ficaria bem – mesmo não tendo certeza –. E eu me perdia em suas promessas de nunca de apaixonar novamente e em minha cabeça pedia perdão a todos os deuses, dizendo que ele não sabia o que estava falando, que não o escutassem e atendesse a seus pedidos de felicidade, se não todos, pelo menos alguns.

Depois de quase duas horas entre álcool e lamentações lá estava eu, com um Chanyeol bêbado apoiando quase todo seu peso em meus ombros ao ser levado até a estação de metrô onde pegaria o ultimo para casa. Lá, já podia ouvir o barulho de metal contra metal, sinal de que estava próximo. Começava a me desvencilhar do braço que se apoiava em mim, mas fui impedido.
Ele me puxou para mais perto, muito perto, perto demais e afundou o rosto no meu ombro, a diferença de altura se tornando mais evidente, se é que era possível.
- Eu te amo hyung. – Ele disse e a força das minhas pernas fraquejou por um momento, quase levando nós dois ao chão.
O barulho agonizante se tornava mais próximo e respirei fundo, tentando afasta-lo, mas ele só apertava ainda mais aquele abraço que me esquentava por inteiro. Aquele calor. Aquela sensação. E eu já não entendia mais como alguém poderia machucar alguma coisa tão bonita e tão preciosa, tão cheia de qualidades. Não entendia como ninguém mais se perdia nos movimentos de seus braços quando tocava sua bateria com tanta paixão que chegava a ser plausível. Eu não entendia como simplesmente nenhuma daquelas garotas que tiveram a chance não o colocaram debaixo do braço e cuidaram para sempre. Não entendia.
Só percebi que havia fechado os olhos quando os abri novamente, encontrando o trem já ali. Respirei fundo e toquei seus braços firmes em minha volta.
- Vai perder o metrô.
Ele suspirou, mas afrouxou o aperto.
- Vá para minha casa amanhã, não me deixe o dia todo sozinho. 
- Estarei lá.
- Leve cerveja.
Um sorriso.
Cheio de tristeza, mas um sorriso.
E entrou a passos incertos dentro da máquina, partindo tão rapidamente quanto chegou.
Fechei os olhos, rezando para quem quer que estivesse ouvindo, pedindo para que Chanyeol chegasse bem em casa, que dormisse sem chorar e acordasse somente quando eu chegasse na sua casa com uma caixa de cerveja e uma sacola de comida instantânea. Rezei para que ele não sonhasse com nada além de coisas bonitas.
Mas aquele aperto no peito ainda estava ali, aquele que sentia todas as vezes que o via e sentia partir, onde eu não poderia alcança-lo, acalenta-lo, acalma-lo.
Me espere, Chanyeol.
 
A fumaça branca deixava meus lábios, consequência do frio de inverno de Seul. Eu estava sentado nos primeiros degraus da escadaria que me levaria até um terraço, onde ficava a minha casa. Minhas mãos estavam geladas mesmo enfiadas dentro dos bolsos do casaco e eu nunca quis tanto um cigarro.
Tinha caminhado a pé até ali e meus pés doíam, mas nada doía mais que aquela sensação de receio de subir aquela maldita escada. Meus olhos foram ao céu, as estrelas eram um pouco mais visíveis nas regiões afastadas dos grandes centros. Tentei ligar os pontos brilhantes como se ligam as constelações, mas o emaranhado que existia em minha cabeça me impedia de lembrar onde havia começado. Uma rajada de vento balançou meus cabelos e eu estremeci de frio, desistindo no mesmo momento de ficar ali. Em pé, encarei os degraus por um longo tempo até respirar fundo e começar a os subir.
Então eu o vi. Um suspiro. Fui até onde ele estava.
Ele estava com aquela calça de moletom velha, a camisa sem mangas leve demais para novembro e pés descalços, apoiado nas grades, com o canudo de um pirulito saindo pelos lábios e olhar perdido na bonita paisagem noturna da cidade.
- Ainda está bravo? – Perguntei ao também me encostar à grade, encarando seus traços bonitos, receoso de sua resposta.
- E por que não estaria?
O tom frio moldado pelo timbre calmo entrou pelos meus ouvidos e preencheu todo o meu corpo, dando razão ao receio. Preferia ter passado a noite no frio daquela escada.
Voltei meus olhos ao céu novamente, mas não mais para ligar estrelas, agora para perguntar para deus ou qualquer um que esteja lá em cima por que as coisas não podiam simplesmente dar certo. Apertei os dedos contra o ferro enferrujado das grades, inspirei fundo e senti o mundo pesar em meus ombros. Nunca respirar fora tão doloroso. Levantei mais o rosto, o mar de emoções tomando sua forma mais humilhante em meus olhos e não, eu não choraria, então engoli o nó que se formava em minha garganta. Engoli as palavras. Engoli os motivos. Engoli o choro. Engoli tudo.
Uma mão quente segurou minha cintura e a outra, a minha cabeça, a forçando a encostar-se em um peito macio e juntar meu corpo a um mais alto.
- Não, não faz isso. Não chore. – Ele disse, próximo o suficiente para que eu pudesse distinguir cada vibração de sua voz, próximo o suficiente para sentir o cheiro gostoso que se desprendia da sua pele.
Próximo o suficiente para ouvir o seu coração.
- Me desculpe, eu... Eu vou arrumar um emprego ou alguma coisa assim, vou me virar, me desculpe por esse mês, Tao.
- ‘Tá tudo bem, não se preocupe, não chore.
E eu respirei fundo mais uma vez, impedindo as lágrimas, impedindo os soluços, impedindo o desespero da inutilidade. Ouvindo as batidas de seu coração, sentindo seu hálito bater contra a lateral de meu rosto, a força dos seus braços ao me envolver. Ele me acalmou dos pés a cabeça, por dentro e fora.
Me deixei abraçar, relaxando cada músculo do corpo, controlando a mim mesmo. Mas permaneci de olhos abertos, fitando o braço esquerdo de Zitao, onde dois grandes e decorados “B” vermelhos estavam marcados para sempre em sua pele no emaranhado de desenhos cheios de significados que não deixaram nada mais além de poucos centímetros da sua pele morena a mostra.
E ficamos assim por um longo tempo. Desejei que pela eternidade.
Mas desejos nem sempre se realizam e o frio o fez estremecer e se afastar, mesmo que ainda me tivesse entre os braços.
- Vem, vamos entrar, está frio.
- Vou ficar aqui só mais um pouco.
Zitao hesitou. Segurou meu queixo e me fez encarar seus olhos.
Foi como pular de cabeça em um mar cheio de tormentas, escuro e quente. Afundando cada vez mais, mais e mais, sem nunca atingir o fundo, sem nunca poder voltar, preso pelas suas aguas pesadas e sombras ondulantes. A pressão esmagando cada um de meus ossos, matando cada célula, findando cada pensamento. Naqueles olhos, eu não era nada.
Ele sabia disso, sabia que se visse suas íris de um oceano de ônix todos os pelos de meu corpo se eriçariam, sabia que meus pensamentos iriam se transformar em um grande silêncio e o ar fugiria dos meus pulmões.
- Não demore.
Ele me soltou e quando ia se afastar o impedi segurando um de seus braços. Segurei também o canudo branco entre seus lábios e o puxei, pegando o pirulito e colocando na minha própria boca. O soltei. Ele revirou os olhos e disse que assaria uma pizza para o jantar, se virou e caminhou até aquela casa-de-terraço de um cômodo só, cheio de lembranças. Nossa casa.
Mais um suspiro.
O toque do moreno de olhos escuros permanecia na minha pele, ardendo, formigando, sendo sentido. O bater de seu coração ainda ecoava meus ouvidos. Ele nunca me saia da memória.
Encostado novamente a grade conseguia distinguir o sabor açucarado e enjoativo demais do doce do tênue e agridoce de Zitao, mesmo que nunca o houvesse provado. Assim como poderia distinguir seu cheiro, seu toque, sua presença, seu tudo. Ele sempre saberia o começo e o fim de Zitao.

Nunca é frio entre seus braços, Zitao.

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